Lembrança de uma tarde de domingo
Elisa até desistiu de beber a saideira. Ficou com tanta raiva do ex-namorado, tão indignada pela grosseria dele com a atual noiva, que deixou o bar triste e com um único pensamento: "Se era esse o tipo de mulher que ele queria, ainda bem que nós não demos certo".
Um passeio gastronômico
Sair para almoçar fora no final de semana é um hábito mais do que paulistano. Paulistaníssimo! Tanto é assim que, muitas vezes entro no carro, acomodo a família e saio para almoçar fora...de São Paulo. Ao menos até a divisa do município. Diversas estradas levam a restaurantes que são recomendados não só pela qualidade das refeições. Mas também por outros motivos: o ambiente, o espaço para deixar as crianças à vontade, a natureza ao redor, a oportunidade de respirar o ar puro. Em suma: pelo passeio. Alguns deles estão bem próximos. Outros, mais longe.
Caio Fernando Abreu
Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa,
não importa o quê, como aquela fé que a gente
teve um dia, me deseja também uma coisa bem
bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me
faça acreditar em tudo de novo, que nos faça
acreditar em tudo outra vez...
Sou fã desse cara.
Desabafo de solidão
Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão, da caridade de quem me detesta..., é assim que ela tem vivido de uns tempos pra cá.
E quem não é mãe
Todo ano é a mesma coisa, Ana sai para almoçar no Dia das mães, não pela data, mas porque almoça fora todos os domingos. E na entrada ou na saída do restaurante ela recebe uma rosa. Coloca num vaso, mas acha que ali a rosa fica muito solitária. Muda para um copo americano e, no final do dia, a rosa acaba indo agonizar dentro da lata de lixo.
Em busca da felicidade
Presa no trânsito, como acontecia diariamente no seu caminho do trabalho para casa, Janete começou a questionar a vida que levava, a cidade onde morava, o carro importado que dirigia e o casamento com um marido tão workaholic quanto ela, com quem dividia uma poderosa empresa de Arquitetura.
Para que ter um carro super potente se não conseguia passar de 40 km/h na cidade? Para que ter uma cobertura deslumbrante, cuja manutenção consumia boa parte do seu rendimento, só para chegar exausta à noite e cair na cama? A casa de praia, outro elefante branco, só usada de vez em quando para receber um bando de hóspedes - daí, ela mais trabalhava do que descançava.
Enquanto o trânsito não andava, fez uma conta rápida do preço das roupas que usava. O jeans, a camisa, a jaqueta, a bota, a bolsa, a lingerie, o relógio, o brinco e o anel somavam muito mais de 20 salários mínimos. Isso sem falar nos cremes, perfumes, maquiagem, tintura e corte de cabelo. E, no entanto, não era absolutamente mais feliz do que quando tudo começou. Muito pelo contrário. A vida tinha ficado mais séria, previsível e artificial.
Lembrou de quando ela e o marido Beto, recém-formados e duros, moravam juntos num romântico apartamento sem garagem e sem elevador. Na sala, tinham duas pranchetas e nenhum projeto, e, no quarto, um colchão no chão e muito amor. Tudo o que tinha cabia numa sala. Naquela época ela e Beto não sabiam que eram muito bons no que faziam, que iriam revolucionar o mercado e que seriam os darlings dos ricos e famosos.
Morrendo de saudades desse tempo e ainda parada no insupotável trânsito de São Paulo, Janete ligou para o marido e fez um desabafo. Beto que também estava num mega engarrafamento, ouviu pacientemente a mulher, Janete disse que tinha enjoado da gente chata e fútil para quem trabalhavam e da vida sem sentido que levavam. Relembrou os bons anos de recém-formados e sugeriu largarem tudo e passarem um ano viajando pelo mundo! Vamos para a Índia? Vamos para Madagascar, Cingarupa! Vamos para onde nunca fomos!
Beto tentou argumentar. Mas ela foi categórica. "Se você não for, eu vou sozinha, e nós vamos ficar tão diferentes e distantes que não sei se vamos continuar juntos." Beto alegou o que alegam todos os homens quando as mulheres dão idéias malucas: que essa crise dela devia ser TPM. foi então que um motoqueiro bateu no seu vidro, apontou uma arma para a sua cabeça e pediu o relógio. Foi o sinal de que ele precisava. Naquele momento, finalmente entendeu como era saudável a proposta absurda que Janete estava fazendo. Em três meses, venderam tudo e sumiram no mundo. A última notícia que se teve deles é que estavam bombando na Indonésia, vendendo casas populares de bambu...
Entre parentes
Estavam cansados daquela vidinha monótona. Então decidiram ser amantes. Pelo menos três vezes por semana. Renato ia a casa de Lívia sempre às tardes. Entrava pelos fundos e ela aumentava o volume da TV. E se jogavam na cama. E foi assim durante quase dois anos tocando o romance secreto.
A família sempre se reunia aos domingos na casa dos sogros deles, lá os dois mantinham distância. Na mesa Lívia escolhia o lado do marido, Fábio ou do filho, enquanto Renato ficava solícito ao lado da mulher Fátima. Fábio e Fátima eram irmãos. Renato e Lívia, cunhados.
Lívia estava numa fase feliz. O marido tinha viajado por alguns meses. Mas o que ela não esperava era que o filho precisaria voltar mais cedo pra casa, sem avisar. E o garoto flagrou a mãe com o tio na cama.
Foi um Deus-nos-acuda. O rapaz foi direto para a casa dos avós desabafar sua indignação e desespero. A família ficou chocada. Pais, irmãos, tios, filhos e sobrinhos dos dois casais se reuniram para debater sobre o acontecido.
Lívia mantinha a altivez e a razão que a paixão lhe conferiam. Disse que foi sem querer, que não contaram antes por falta de coragem.
Renato não estava muito convicto , mas, acuado, anunciou a sua separação. Fátima só chorava. E o resto da família defendia Fábio, o ausente. O veredicto foi que Lívia deveria sair da casa do marido e Renato, da casa da mulher. Não havia mais o que falar. Qualquer palavra era um insulto. E Lívia e Renato se foram.
Quando fecharam a porta, um silêncio de morte tomou conta do ambiente. Então o interfone tocou e, do outro lado da linha, a Lívia falou para o primeiro que atendeu:
- Oi pede pro meu filho trazer os meus óculos que ficaram aí?
- Ela esqueceu os óculos aqui!
Todos se entreolharam e nos seus lábios sorrisos sarcáticos se desenharam. E várias mãos voaram para pegar a armação na mesa:
- Óculos nem vi - falou a irmã de Fátima, enquanto o acessório deslizava de suas mãos para o chão e era espatifado com uma pisada.
- Será que é esse aqui? - perguntou Fátima, firmando a ponta da bota na lente de dois graus.
- Pedro leva lá pra sua mãe. Diga que é uma pena, mas a gente não viu e, sem querer, pisou nele.
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