Lembrança de uma tarde de domingo

Elisa até desistiu de beber a saideira. Ficou com tanta raiva do ex-namorado, tão indignada pela grosseria dele com a atual noiva, que deixou o bar triste e com um único pensamento: "Se era esse o tipo de mulher que ele queria, ainda bem que nós não demos certo".

Ricardo e Elisa foram namorados por algum tempo. Mas, sem muita explicação, se separaram. Dois anos depois, se reencontraram com a velha turma de amigos, cada um com o seu atual par a tiracolo.
De repente, ele, pra fazer graça, apertou um dos seios de Elisa e fez 'fom-fom', como se fosse uma buzina, dando uma bela gargalhada no final. Na frente de todo mundo! Parecia um louco! A noiva dele ficou sem graça, mas não falou nada. Elisa levantou e foi embora. Só conseguia lembrar de seu pai...
Era uma velha lembrança de uma tarde de domingo: na televisão, um programa de auditório cantava músicas polulares, mas nenhum dos dois prestavam atenção. Eles se espremiam no sofá. Elisa estava em seu quarto, brincando com bonecas e amigos imaginários, quando escutou as risadas abafadas que vinham da sala. Tinha uns 7 anos. Abriu a porta do quarto e foi espiar seus pais namorando. Seu pai estava com uma mão em um dos seios de sua mãe, que reclamava melosa: "Pára, bem!". Eles logo perceberam a entrada dela na sala. O pai levantou a cabeça e a encarou com os olhos brilhantes. Ele sorriu para Elisa com ar de quem fazia uma travessura. "Oi, filha, você está aí? Vem cá com a gente!". Depois de enche-la de beijos, despachou-a com um tapinha no bumbum: "Agora vai brincar que eu vou ficar aqui, namorando a sua mãe..."
Elisa tinha uma certa adoração pelo seu pai. O ar de brincalhão e o corpo grande e cheio de pêlos, para ela, era sinônimo de segurança e também de aconchego. A barriga dele parecia uma almofada onde ela podia deitar a cabeça e dormir. Com o pai, e a forma como ele tratava a mãe, aprendeu que o desejo não era pecado, mas também que a intimidade não devia ser exposta publicamente.
O pai de Elisa podia parecer ousado, mas nunca, nunca mesmo, envergonhou a sua mãe. Nunca faria "fom-fom" nos seios de uma mulher.

posted by Laura on 04:21

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Um passeio gastronômico

Sair para almoçar fora no final de semana é um hábito mais do que paulistano. Paulistaníssimo! Tanto é assim que, muitas vezes entro no carro, acomodo a família e saio para almoçar fora...de São Paulo. Ao menos até a divisa do município. Diversas estradas levam a restaurantes que são recomendados não só pela qualidade das refeições. Mas também por outros motivos: o ambiente, o espaço para deixar as crianças à vontade, a natureza ao redor, a oportunidade de respirar o ar puro. Em suma: pelo passeio. Alguns deles estão bem próximos. Outros, mais longe.

Em Mairiporã, em plena Mata Atlântica, fica o pequenino e sofisticado Quinta da Canta. Abre apenas nos finais de semana para, no máximo, 30 pessoas, que, claro, precisam fazer reserva. A sensação é de estar numa casa de campo, em que se aprecia durante toda uma tarde um menu-degustação exclusivo. Em dias de sol, as refeições são servidas no jardim.
Quando está frio, ao pé da lareira e do fogão à lenha.
Fiquei encantada com o lugar!

posted by Laura on 18:54

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Caio Fernando Abreu



Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa,
não importa o quê, como aquela fé que a gente
teve um dia, me deseja também uma coisa bem
bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me
faça acreditar em tudo de novo, que nos faça
acreditar em tudo outra vez...

Sou fã desse cara.

posted by Laura on 04:08

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Desabafo de solidão

Dias sim, dias não, eu vou sobrevivendo sem um arranhão, da caridade de quem me detesta..., é assim que ela tem vivido de uns tempos pra cá.

O medo de sair de casa esta dominado-a, têm medo de olhar nos olhos das pessoas.
- Não aguento mais essa gente. Porque me detestam? Nem me conhecem.
Valéria não é a pior pessoa do mundo, aliás, nunca fez mal a ninguém. Ela é uma pessoa de poucos amigos, ou melhor, nem tem amigos. O problema é que, ela diz o que pensa, ou fala antes de pensar. Não importa, ela é sincera e ponto. Há pouco tempo se decepcionou com uma pessoa que achou que podia confiar, achou até que era sua amiga, mas como sempre as pessoas a surpreende, sempre de forma negativa, talvez seja por isso, que não olha pra ninguém, não consegue mais acreditar nos outros. E como sempre Valéria é mal interpretada, acham que ela é ogulhosa ou até mesmo uma pessoa brava ou ainda, metida a besta.
Mas não, Valéria simplesmente desistiu...

posted by Laura on 21:24

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E quem não é mãe

Todo ano é a mesma coisa, Ana sai para almoçar no Dia das mães, não pela data, mas porque almoça fora todos os domingos. E na entrada ou na saída do restaurante ela recebe uma rosa. Coloca num vaso, mas acha que ali a rosa fica muito solitária. Muda para um copo americano e, no final do dia, a rosa acaba indo agonizar dentro da lata de lixo.

Ana sempre se questionou "nesses domingos de maio". Porque não passa pela cabeça de (quase) ninguém, incluindo donos de restaurantes, que algumas mulheres não são mães?
Ela já se acostumou a ser vista como E.T. Casada, é a única da sua turma de amigos a não ter filhos.
Mas para Ana, existe um aspecto fundamental na sua vida. Por ela não ter tido filhos, ficava mais disponível, e acabava virando mãe de muita gente: dos sobrinhos, dos filhos dos outros, dos pais, dos irmãos que tinham problemas...Ou seja, para que as mães possam ser mães, é preciso haver as "não-mães" cuidando do resto.
Será que isso não dava o direito de Ana sair do restaurante com a rosa, sem sentir-se culpada?

posted by Laura on 19:15

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Em busca da felicidade

Presa no trânsito, como acontecia diariamente no seu caminho do trabalho para casa, Janete começou a questionar a vida que levava, a cidade onde morava, o carro importado que dirigia e o casamento com um marido tão workaholic quanto ela, com quem dividia uma poderosa empresa de Arquitetura.
Para que ter um carro super potente se não conseguia passar de 40 km/h na cidade? Para que ter uma cobertura deslumbrante, cuja manutenção consumia boa parte do seu rendimento, só para chegar exausta à noite e cair na cama? A casa de praia, outro elefante branco, só usada de vez em quando para receber um bando de hóspedes - daí, ela mais trabalhava do que descançava.
Enquanto o trânsito não andava, fez uma conta rápida do preço das roupas que usava. O jeans, a camisa, a jaqueta, a bota, a bolsa, a lingerie, o relógio, o brinco e o anel somavam muito mais de 20 salários mínimos. Isso sem falar nos cremes, perfumes, maquiagem, tintura e corte de cabelo. E, no entanto, não era absolutamente mais feliz do que quando tudo começou. Muito pelo contrário. A vida tinha ficado mais séria, previsível e artificial.
Lembrou de quando ela e o marido Beto, recém-formados e duros, moravam juntos num romântico apartamento sem garagem e sem elevador. Na sala, tinham duas pranchetas e nenhum projeto, e, no quarto, um colchão no chão e muito amor. Tudo o que tinha cabia numa sala. Naquela época ela e Beto não sabiam que eram muito bons no que faziam, que iriam revolucionar o mercado e que seriam os darlings dos ricos e famosos.
Morrendo de saudades desse tempo e ainda parada no insupotável trânsito de São Paulo, Janete ligou para o marido e fez um desabafo. Beto que também estava num mega engarrafamento, ouviu pacientemente a mulher, Janete disse que tinha enjoado da gente chata e fútil para quem trabalhavam e da vida sem sentido que levavam. Relembrou os bons anos de recém-formados e sugeriu largarem tudo e passarem um ano viajando pelo mundo! Vamos para a Índia? Vamos para Madagascar, Cingarupa! Vamos para onde nunca fomos!
Beto tentou argumentar. Mas ela foi categórica. "Se você não for, eu vou sozinha, e nós vamos ficar tão diferentes e distantes que não sei se vamos continuar juntos." Beto alegou o que alegam todos os homens quando as mulheres dão idéias malucas: que essa crise dela devia ser TPM. foi então que um motoqueiro bateu no seu vidro, apontou uma arma para a sua cabeça e pediu o relógio. Foi o sinal de que ele precisava. Naquele momento, finalmente entendeu como era saudável a proposta absurda que Janete estava fazendo. Em três meses, venderam tudo e sumiram no mundo. A última notícia que se teve deles é que estavam bombando na Indonésia, vendendo casas populares de bambu...

posted by Laura on 04:26 under

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Entre parentes

Estavam cansados daquela vidinha monótona. Então decidiram ser amantes. Pelo menos três vezes por semana. Renato ia a casa de Lívia sempre às tardes. Entrava pelos fundos e ela aumentava o volume da TV. E se jogavam na cama. E foi assim durante quase dois anos tocando o romance secreto.
A família sempre se reunia aos domingos na casa dos sogros deles, lá os dois mantinham distância. Na mesa Lívia escolhia o lado do marido, Fábio ou do filho, enquanto Renato ficava solícito ao lado da mulher Fátima. Fábio e Fátima eram irmãos. Renato e Lívia, cunhados.
Lívia estava numa fase feliz. O marido tinha viajado por alguns meses. Mas o que ela não esperava era que o filho precisaria voltar mais cedo pra casa, sem avisar. E o garoto flagrou a mãe com o tio na cama.
Foi um Deus-nos-acuda. O rapaz foi direto para a casa dos avós desabafar sua indignação e desespero. A família ficou chocada. Pais, irmãos, tios, filhos e sobrinhos dos dois casais se reuniram para debater sobre o acontecido.
Lívia mantinha a altivez e a razão que a paixão lhe conferiam. Disse que foi sem querer, que não contaram antes por falta de coragem.
Renato não estava muito convicto , mas, acuado, anunciou a sua separação. Fátima só chorava. E o resto da família defendia Fábio, o ausente. O veredicto foi que Lívia deveria sair da casa do marido e Renato, da casa da mulher. Não havia mais o que falar. Qualquer palavra era um insulto. E Lívia e Renato se foram.
Quando fecharam a porta, um silêncio de morte tomou conta do ambiente. Então o interfone tocou e, do outro lado da linha, a Lívia falou para o primeiro que atendeu:
- Oi pede pro meu filho trazer os meus óculos que ficaram aí?
- Ela esqueceu os óculos aqui!
Todos se entreolharam e nos seus lábios sorrisos sarcáticos se desenharam. E várias mãos voaram para pegar a armação na mesa:
- Óculos nem vi - falou a irmã de Fátima, enquanto o acessório deslizava de suas mãos para o chão e era espatifado com uma pisada.
- Será que é esse aqui? - perguntou Fátima, firmando a ponta da bota na lente de dois graus.
- Pedro leva lá pra sua mãe. Diga que é uma pena, mas a gente não viu e, sem querer, pisou nele.

posted by Laura on 20:45

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